Mostrar mensagens com a etiqueta Nidificação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nidificação. Mostrar todas as mensagens

31 de agosto de 2010

Resultados da protecção de ninhos em Castro Verde

Terminada a época de reprodução, é possível avaliar o sucesso das acções de salvamento de ninhos na ZPE de Castro Verde.
Foram colocadas redes em 4 ninhos, tendo em 3 deles sido produzidos juvenis voadores. O outro ninho localizava-se muito próximo de uma estrada e quando foi colocada a rede apenas continha um juvenil com idade inferior a 5 dias, pelo que a previsão de sucesso reprodutor desde logo foi considerada baixa.
Um dos ninhos com sucesso reprodutor foi localizado poucas horas após a passagem da ceifeira debulhadora e continha 3 ovos. Considerando que se estava a 23 de Junho, provavelmente tratava-se de uma postura tardia ou então de uma segunda postura, após predação ou destruição da primeira.

Ninho com vedação em rede

Conteúdo do ninho: 3 ovos, no dia 23.6.10


O mesmo ninho no dia 14.7.10
 
Dois juvenis com idade compreendida entre 15 e 20 dias


Outros 4 ninhos localizados pelos operadores das ceifeiras debulhadoras mas onde não foi possível colocar de imediato redes de protecção, quando foram inspeccionados 8 ou 10 dias depois, encontravam-se predados provavelmente por aves ou mamíferos carnívoros.

Local de ninho onde foi mantida a vegetação envolvente, mas já sem vestígios de ovos ou de juvenis. 23.6.10

Restos de um juvenil de águia-caçadeira predado por mamífero carnívoro, possivelmente raposa. 14.7.10

Ainda que partam de uma amostra reduzida, estes resultados revelam que a colocação de redes não gera perturbação que cause o abandono do ninho por parte das aves adultas e reduz, de forma significativa, o risco de predação de ovos e de juvenis.

9 de junho de 2010

Dias chuvosos


Os últimos dois dias foram marcados por precipitação, descida da temperatura e aumento da humidade relativa e as previsões meteorológicas apontam para a persistência destas condições nos próximos cinco a oito dias. Para quem tem cereais e estava prestes a iniciar a ceifa da aveia, não serão boas notícias. Existe o risco de desenvolvimento de fungos ou de pré-germinação do grão no interior da espiga, o que irá reduzir o seu valor comercial para transformação.

Porém, o atraso da ceifa em uma ou duas semanas nas parcelas cultivadas com cereais e com ninhos de águia-caçadeira irá certamente contribuir para o sucesso reprodutor desta ave.
Num estudo realizado em 2004, na planície de Évora e na ZPE de Castro Verde, foi determinada a produtividade em 24 ninhos de águia-caçadeira, para os quais foi conhecida a data de realização da ceifa e a idade dos juvenis.

Verificou-se que a produtividade variou proporcionalmente com a idade dos juvenis, independentemente das medidas de protecção do local do ninho, evidenciado a vantagem no atraso da ceifa nessa parcela.

28 de abril de 2010

Dias trágicos para as aves nidificantes no solo

A um Inverno pluvioso sucedeu uma Primavera mais soalheira. A vegetação cultivada e espontânea respondeu com um vigoroso desenvolvimento vegetativo. Durante o mês de Abril, os campos alentejanos foram revestidos por cores fortes e diversas.

Parcela agrícola em pousio (cultivada com trigo no ano anterior)
2 de Abril de 2010

Presentemente, com dias quentes e secos, assiste-se ao corte de aveia e de pastos para feno ou silagem, em plena época de reprodução de aves cujo ninho é construído no solo: abetarda Otis tarda, sisão Tetrax tetrax, águia-caçadeira Circus pygargus, cartaxo Saxicola torquata, trigueirão Miliaria calandra, etc.

A vegetação espontânea a ser cortada para feno.
28 de Abril de 2010 

Seara de aveia
28 de Abril de 2010

Antes da aproximação das máquinas, é possível escutar o canto da perdiz-vermelha Alectoris rufa ou da codorniz Coturnix coturnix, duas espécies cinegéticas fortemente prejudicadas pelo corte precoce da vegetação. Mas normalmente são as raposas, cegonhas ou garças-boeiras apontadas como as culpadas da destruição das suas posturas, ignorando-se o impacte directo causado por estes cortes para feno.

Perdiz-vermelha

Em Espanha (que serve de exemplo para justificar a construção das linhas de TGV ou para a expansão do olival e culturas de regadio em Portugal), técnicos da administração pública em colaboração com equipas de associações ambientalistas, estarão neste momento no terreno a acompanhar o trabalho das máquinas agrícolas, a localizar ninhos de espécies prioritárias em termos de conservação e a pagar aos agricultores a manutenção da vegetação na proximidade desses ninhos. Junta de Andalucia, Junta de Extremadura ou Gobierno de la Rioja divulgam alguns exemplos de intervenção que não têm qualquer correspondência em Portugal.
Hoje, na planície de Évora, em parte classificada como Zona de Protecção Especial para aves mas ainda sem plano de gestão agrícola, apenas encontrei tractoristas…

7 de março de 2010

Uma questão de sobrevivência

Na última noite morreu o juvenil mais novo do ninho de coruja-das-torres em Starr Ranch Sanctuary. Como se pode observar na gravação de há 6 dias, competia sem grande sucesso com os irmãos mais velhos pelo alimento fornecido pelos adultos.
Para quem está acompanhar o quotidiano destas aves, a morte desta ave foi dramática, mas inevitável em consequência das fortes chuvadas que têm atingido a região nos últimos dias e restringido os voos de caça dos adultos.
Tal como a coruja-das-torres, a águia-caçadeira tem uma estratégia reprodutora semelhante: posturas com uma dimensão elevada (4 a 6 ovos), com intervalo médio de 2 dias na postura de cada ovo e na eclosão dos juvenis.

 
Em anos excepcionais de grande abundância de presas, é possível que todos os juvenis alcancem a capacidade de voo. Caso contrário, é preferível que apenas alguns cresçam fortes e saudáveis, com o consequente sacrifício dos mais débeis.

Aos interessados em compreender melhor esta relação entre dinâmicas populacionais de populações de predadores e de presas, sugere-se uma pesquisa sobre o modelo de Lotka-Volterra, por exemplo a partir de aqui ou aqui.

15 de outubro de 2009

O ninho da águia



Depois, resolutamente, dirigi-me à azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construído sobre três pernadas robustas – Como sobre os três dentes de uma forquilha. Eu nunca vira coisa igual, a falar sinceramente. Tinha o feitio oval de um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso subir até lá. Atirei a laçada à primeira bifurcação do tronco, icei-me.”


O ninho da águia (1881)
Contos – Fialho de Almeida


Tal como o escritor Fialho de Almeida, geralmente associamos os ninhos das águias a altas e frondosas árvores ou a escarpadas falésias. Mas a águia-caçadeira constrói sempre o ninho no solo, dissimulado entre vegetação herbácea ou arbustiva.
Ao seleccionar espaços pouco ou nada arborizados para a reprodução e alimentação, diminui a competição com outras aves de presa. Mas se esses locais são simultaneamente utilizados para a agricultura, os ninhos ficam susceptíveis de destruição durante o corte dos fenos ou a ceifa dos cereais.
É neste delicado equilíbrio entre a preservação de uma espécie silvestre e a manutenção de determinadas práticas agrícolas que devemos encontrar uma conciliação.

Ainda que não sejam conhecidos registos que permitam determinar a dinâmica populacional ao longo do último século, em particular no Alentejo, certamente que a sua abundância está correlacionada com a dimensão das áreas semeadas com cereais em sistema de rotação, alternado com pousios.
Profundas alterações nos agro-sistemas, através da conversão de extensas áreas de sequeiro em regadio ou olival intensivo, produzirão certamente consequências na população de águia-caçadeira que importa avaliar.